Que se deve pensar sobre os sedevacantistas?

Ante o escândalo provocado por papas que promulgaram Dignitatis Humanae, mudaram radicalmente a liturgia da Missa, codificaram uma nova eclesiologia e se tornaram protagonistas de um ecumenismo aberrante, algumas pessoas concluíram que os últimos papas não podem ter sido verdadeiros papas ou que perderam o pontificado por causa de tais escândalos. Citam em sua defesa as discussões dos grandes teólogos da Contrarreforma sobre a perda do sumo pontificado (por abdicação, loucura ou heresia).

O argumento sedevacantista

Argumento básico :

Um herege não é membro da Igreja e, portanto, não pode ser sua cabeça.
Mas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco são hereges.
Logo não são membros nem cabeça da Igreja.

Continuação do argumento:

Os mesmos escândalos se repetem entre os bispos diocesanos de todo o mundo, que, em consequência, não seriam membros e careceriam de autoridade. E assim, a Igreja Católica se identificaria com aqueles que não transigiram em matéria de fé e que recusam estar em comunhão com tais papas e bispos.

Uma minoria dessas pessoas elegeu seu próprio “papa”. (E.g. as comunidades de Palmar de Troya (Espanha) e de S. Jovita (Canadá).

A força do argumento provém do escândalo real provocado pelas autoridades conciliares com a “nova direção” que dão à Igreja.  A debilidade do argumento está no fato de que não é possível provar que nenhuma dessas autoridades seja formalmente herética. Deve-se notar que um “herege material” é aquele que contradiz objetivamente a verdade revelada por Deus.  Um “herege formal”, contudo, contradiz objetivamente a Revelação com pertinácia, ou seja, sabendo que nega a palavra ou a vontade de Deus.

Mas o modo ordinário com que a Igreja averigua a pertinácia e impõe as penas devidas (como a excomunhão ou a perda de um cargo eclesiástico) é por meio do envio de admonições autorizadas ao delinquente e desprezadas por este (CDC [1917], can. 2314.1). Com efeito, as admonições só têm força canónica quando vêm de um Superior (c. 2233). O problema está em que não basta que o crime seja notório, deve haver também imputabilidade moral do delinquente (cc. 2195, 2197).

Contudo, ninguém tem autoridade para julgar o papa (c.1556) e os bispos só podem ser julgado por seu superior, que é o papa (c.1557). Portanto, não é possível comprovar a pertinácia nem a heresia formal.

Objeção e solução

Objeção: Não se pode presumir a pertinácia desses papas devido à sua insistência sobre as novas doutrinas, em contra de toda a Tradição e de suas testemunhas atuais?

Resposta: Talvez sim, julgando-os de modo privado, mas não os julgando em sua função social, isto é, em relação à perda do cargo, porque, se queremos que as sociedades não se desmoronem, a pertinácia no mal deve não somente ser presumida, mas também provada.

Um papa materialmente herege

O argumento sedevacantista não é seguro, mas se torna ainda menos provável quando se considera que existem outras explicações para a possível existência de “um Papa materialmente herege”. O argumento chega inclusive a mostrar-se improvável quando se analisam seus perigos e consequências.

Outras explicações sobre um Papa materialmente herege

A mentalidade liberal de Paulo VI e de João Paulo II pode explicar sua pretensão de serem católicos e simultaneamente sua traição, na prática, do catolicismo.  Eles aceitam as contradições, segundo uma mentalidade subjetiva e evolutiva. Por exemplo, João Paulo II disse em Ut Unum Sint §3:
 

No Concílio Vaticano II, a Igreja Católica se entregou irrevogavelmente ao caminho do ecumenismo, obedecendo assim ao Espírito do Senhor, que ensina os homens a interpretar com atenção os ‘sinais dos tempos’.”

Se foi somente por causa dos ‘sinais dos tempos’ que a Igreja Conciliar se lançou ao ecumenismo, como podemos saber que essa iniciativa é irrevogável?  Que quer dizer o Papa com o uso de términos tão absolutos? Esse tipo de estrutura mental só pode ser convencida de heresia por via de autoridade.

Os perigos de uma Igreja sem cabeça

A Igreja é indefectível não só em sua fé e nos meios de santificação, mas também em sua constituição monárquica, que inclui o poder de governo, ou seja, a jurisdição.  Por esse motivo, o Concílio Vaticano I afirmou que Pedro terá perpetuamente sucessores.

Pode-se entender o breve corte na linha de sucessão papal que dura entre a morte de um e a eleição do seguinte. Também é compreensível que a eleição demore algum tempo (o intervalo mais longo foi o de 3 anos entre 304, morte de São Marcelino, e 307, eleição de São Marcelo I).  Mas estaria preservada a indefectibilidade da Igreja se não houvesse papa desde 1962 (ou 1958, ou inclusive 1955 segundo aqueles que tomam como ponto de referência a legislação litúrgica)?  Estaria preservada a indefectibilidade se não houvesse ninguém com jurisdição ordinária, segundo as hipóteses sedevacantistas?

A Igreja é visível e não somente uma sociedade composta por membros que se uniram a ela por vínculos interiores (como seriam o estado de graça e a fé).  Em qualquer sociedade, entre elas a Igreja, é necessária uma autoridade que atue como ponto de centralização para a unidade de direção e de fim dessa sociedade. Leão XIII, Encíclica Satis Cognitum.

As consequências nefastas do sedevacantismo

Se a Igreja não tem um papa desde o Vaticano II, então não existe nenhum cardeal legitimamente criado.  Mas nesse caso, como a Igreja elegerá um papa, considerando que a disciplina atual concede este poder somente aos cardeais? A Igreja poderia haver prescrito que outras pessoas tivessem o oficio de eleitores do papa, mas não podemos ir por uma via distinta da que estabelece a disciplina ordinária, que ordena que os eleitores sejam os cardeais. Outros grupos sedevacantistas menos sérios dizem que o verdadeiro papa será designado diretamente por uma revelação celestial privada.

O sedevacantismo tem também consequências espirituais. Com efeito, o sedevacantismo é uma opinião teológica e não uma certeza.  Considerá-lo como uma verdade absoluta leva a condenar duramente aqueles que não o seguem e a considerá-los não como “talvez equivocados”, mas como ”hereges”. Conduz também inevitavelmente a não reconhecer nenhum superior espiritual na terra, tornando-se cada um, na prática, seu próprio “papa”, regra de fé e de ortodoxia e juiz da validez dos sacramentos.

Podemos associar-nos com eles?

Podemos associar-nos com eles, ou seja, administrar os sacramentos aos sedevacantistas ou receber deles os sacramentos?  Distingamos entre aqueles que:

  • Consideram o sedevacantismo como uma opinião teológica; sim,
  • Consideram a vacância como uma certeza teológica. Nesse caso, se não há alternativa nem pressão para pensar como eles, sim. Em caso contrário, não.
  • Consideram essa opinião como uma verdade de fé; não.
  • Nomearam seu próprio “papa”; absolutamente não.

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