O tempo do Advento

Dezembro 01, 2021

Na Igreja Latina, o nome Advento é dado ao tempo reservado pela Igreja para preparar os fiéis para a celebração da festa do Natal, o aniversário do nascimento de Jesus Cristo.

O TRÍPLICE ADVENTO


Se quisermos penetrar nas profundezas do mistério que ocupa a Igreja durante este período, descobriremos que o mistério do Advento de Jesus Cristo é ao mesmo tempo simples e triplo. Simples, porque é o próprio Filho de Deus que vem; triplo, porque Ele vem em três ocasiões e de três maneiras. "No primeiro Advento", diz São Bernardo no quinto sermão do Advento, "Ele vem em carne e osso; no segundo vem em espírito e poder; no terceiro vem em glória e majestade; o segundo é o meio pelo qual Ele passa do primeiro para o terceiro". Este é o mistério do Advento.

O PRIMEIRO ADVENTO

Durante o Advento, portanto, a Santa Igreja aguarda com lágrimas e impaciência a vinda de Cristo no seu primeiro Advento. E assim ela ecoa as palavras ardentes dos Profetas, às quais acrescenta as suas próprias súplicas. Os anseios do Messias não são, na boca da Igreja, uma mera recordação dos anseios do povo antigo; eles têm um valor real, uma influência efectiva no grande acto de generosidade do Pai celestial, que nos deu o seu Filho. De toda a eternidade, as orações reunidas do povo antigo e as da Igreja estavam presentes antes do culto divino; e foi depois de Ele as ter ouvido e escutado a todas, que Ele determinou enviar para a terra, a seu tempo, este orvalho celestial que fez germinar o Salvador.

O SEGUNDO ADVENTO

A Igreja também anseia pelo Segundo Advento, que é uma consequência do Primeiro Advento, e que consiste na visita do Esposo à Noiva. Este Advento ocorre todos os anos na festa do Natal; um novo nascimento do Filho de Deus liberta a sociedade dos Fiéis do jugo da escravatura que o inimigo gostaria de lhe impor. Durante o Advento, portanto, a Igreja pede para ser visitada por Aquela que é a sua Cabeça e Esposa, visitada na sua Hierarquia, nos seus membros, alguns vivos e alguns falecidos mas capazes de regressar à vida; e finalmente em todos aqueles que não estão em comunhão com ela, nos próprios incrédulos, para que se convertam à verdadeira luz, que brilha também para eles. As expressões da Liturgia, que a Igreja usa para pedir este Advento amoroso e invisível, são as mesmas que ela pede a vinda do Redentor na carne; porque proporcionalmente a situação é idêntica. Em vão teria o Filho de Deus vindo, há vinte séculos atrás, se não voltasse por cada um de nós e em cada momento da nossa existência, para obter e fomentar em nós aquela vida sobrenatural cujo princípio é Ele e o Espírito Santo.

O TERCEIRO ADVENTO

Mas esta visita anual do Esposo não satisfaz os desejos da Igreja; ela ainda anseia pelo terceiro Advento, que será a consumação de tudo e que lhe abrirá as portas da eternidade. Ela guarda na sua memória a última frase do Esposo: "Eis que estou a chegar a tempo"; e diz com fervor: "Vem, Senhor Jesus! Ela tem de estar livre da escravidão do tempo; ela anseia por ver o número dos eleitos completado, e ver o sinal do seu Libertador e Esposo aparecer sobre as nuvens do céu.

Mas o dia da vinda do Noivo será também um dia terrível. A Santa Igreja treme frequentemente com o próprio pensamento do tremendo tribunal perante o qual o mundo inteiro irá aparecer. E não que ela tema por si própria, uma vez que a coroa da Noiva vai ser colocada na sua fronte nesse dia de uma forma definitiva; mas o seu coração materno treme ao pensar que muitos dos seus filhos estarão à esquerda do Juiz, e que privados de toda a sociedade com os eleitos, serão lançados para sempre, de mãos e pés atados, na escuridão onde nada mais haverá senão choro e ranger de dentes. É por isso que a Igreja pára tão frequentemente, na Liturgia do Advento, para considerar o Advento de Cristo como um Advento terrível e, nas Escrituras, escolhe as passagens mais adequadas para despertar um terror salutar nas almas daqueles dos seus filhos que podem estar a dormir no sono do pecado.

FORMAS LITÚRGICAS

Pela cor do luto com que é coberto, a Santa Igreja deseja tornar sensível aos seus olhos a tristeza que agarra o coração do povo. Com excepção das festas dos Santos, ela utiliza apenas a cor violeta. Este luto da Igreja indica claramente como ela se associa verdadeiramente aos verdadeiros israelitas que esperaram o Messias em cinza e saco, e lamentaram a glória eclipsada de Sião, e o "ceptro tirado de Judá, até chegar Aquele que deve ser enviado, Aquele que é o anseio das nações". Significa também os trabalhos de penitência pelos quais se prepara para o segundo Advento cheio de doçura e mistério a ser realizado nos corações. Finalmente, traduz a desconsolação desta viúva, à espera do Esposo que se atrasa na sua vinda.

A Igreja também suspende a utilização da Gloria in excelsis Deo durante o Advento, fora das festas dos Santos. De facto, este cântico maravilhoso foi ouvido pela primeira vez em Belém na gruta do Deus Menino; as línguas dos Anjos ainda estão em silêncio; a Virgem ainda não colocou o Deus Menino na manjedoura; ainda não é tempo de cantar, ainda não é próprio entoar: "Glória a Deus no mais alto".

No entanto, há uma característica que distingue esta estação: o canto da alegria, o Aleluia jubiloso, não é suspenso durante o Advento, excepto em dias de feira. Continua a ser cantada na missa dos quatro domingos, contrastando com a cor das vestes. Há mesmo um domingo, o terceiro, quando o órgão recupera a sua voz e a triste violeta é substituída durante algumas horas por rosa. Esta recordação de alegrias passadas significa também que, embora a Igreja se junte ao povo antigo para implorar a vinda do Messias e assim pagar a grande dívida que a humanidade contraiu com justiça e bondade divina, ela não esquece que o Emanuel já veio por ela, que ele está ao seu lado e que antes de ela mover os seus lábios pedindo redenção, ela já está resgatada e marcada para a união eterna com o seu Esposo.