O que Igreja deve a D. Marcel Lefebvre ? 4

Novembro 05, 2020
Fonte: District of Spain and Portugal

Entrevista com Dom Bernardo Tissier de Mallerais

Com ocasião do vigésimo-quinto aniversário do dies natalis do arcebispo Dom Marcel Lefèbvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Dom Bernardo Tissier de Mallerais, Bispo auxiliar da FSSPX, teve a amabilidade de responder às perguntas que lhe fizemos.

Poderia Vossa Excelência falar nos seus combates no Concílio e na continuação do mesmo?

Com frequência, vê-se em Dom Lefèbvre o debelador dos erros conciliares, o qual não é em absoluto o mais essencial nele. Mas foi enrolado nesse combate e estava preparado para ele. Isto ocorreu desde o Concílio e o seu combate é certamente fruto da sua fé em Cristo Rei.

Enumero, pois, já que o senhor o pede, seus combates principais, uma trilogia conciliar que é semelhante à trilogia maçónica da Revolução francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. É o próprio Dom Lefèbvre que descobriu esse paralelo e o explorou com frutos, há que dizê-lo!

- Liberdade: é a liberdade religiosa, com a declaração Dignitatis Humanae.

- Igualdade: é a colegialidade episcopal em Lumen Gentium.

- Fraternidade: é o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, com Unitatis redintegratio e Nostra Aetate.

Ele próprio nos refutou esses erros em detalhe e com frequência. Mas, atenção! Com esses erros conciliares, o senhor está a conduzir-me bastante longe do retrato de Dom Lefèbvre… Tanto pior para o senhor! Permite-me que enumere os diversos pontos de “divergência” (eufemismo), que são por outro lado os que nos opõem hoje à Roma conciliar. É muito actual.

A Liberdade religiosa é, diz o Concílio, o direito natural da isenção de toda coerção que têm os adeptos de todas as religiões, sem distinção entre a verdadeira e as falsas.

1- É, diz Dom Lefèbvre, uma falsa conceição da liberdade. A liberdade está feita para o verdadeiro e para o bem. «E conhecereis a verdade, e a verdade os fará livres», proclama Jesus (Jo. 8, 32). Deixar a mesma liberdade ao verdadeiro como ao falso é o erro do indiferentismo político, que leva as pessoas a crer nessa heregia de que todas as religiões valem o mesmo, e que leva a sociedade ao caos, e a Igreja à ruina, e as almas ao inferno. Acrescento, pois é um tema actual, que o próprio islão não suporta teoricamente essa liberdade conciliar, mas se aproveita dela na práctica, nos países outrora cristãos; é uma loucura.

2- Por outro lado, Dom Lefèbvre recorda que a sociedade civil e o Estado são criaturas de Deus autor da natureza social do homem. O Estado deve, pois, uma homenagem religiosa, não por meio de qualquer religião, senão por meio daquela que foi instituída pelo próprio Deus. De maneira que se pode raciocinar deste modo: os adeptos de outras religiões não têm mais que um direito abstracto, aparente, putativo, um jus existimatum, ao exercício do “culto religioso” considerado em abstracto, podem reivindicar este direito abstracto frente aos negadores e perseguidores de todo o culto religioso. O senhor compreende o que é um direito “abstracto”? Prossigo o raciocínio. Mas o próprio Deus tem estipulado com que culto concreto quer ser honrado. O direito divino positivo veio para precisar o direito natural. Só o culto da Igreja é aceite por Ele. Por tanto só os católicos e a Igreja têm um direito absoluto, verdadeiro, concreto e certo no exercício do culto divino (que é o verdadeiro culto do verdadeiro Deus), direito ante o qual o direito aparente dos acatólicos deve ceder: “preasumptio cedat veritati”, como se diz. Dom Lefèbvre fazia implicitamente este raciocínio jurídico, quando proclamava o direito verdadeiro e absoluto dos católicos unicamente e da Igreja (cf. A última intervenção escrita do Coetus no Concílio em Dezembro de 1965).

3- Finalmente, diz Dom Lefèbvre, o Estado deve o reconhecimento e a protecção da Lei de Deus a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Igreja católica. Deve conformar as suas leis aos mandamentos de Deus e ao Evangelho. É o que se chama de reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Liberdade religiosa é a negação e a ruina desse reino do Homem-Deus, da sua divindade, da sua preexcelência sobre toda criatura, do seu reinado sobre as sociedades humanas.

4- Segundo a doutrina tradicional, o Estado deve reprimir os escândalos públicos. Ora, as manifestações exteriores dos falsos cultos são um escândalo, portanto o Estado tem direito a reprimi-las; ou bem, em outras circunstâncias, empregar a tolerância com elas se a conservação da paz pública o sugere, mas essa tolerância não é um direito natural dos tolerados, é uma disposição do direito civil, com vistas, não ao bem próprio e aparente dos dissidentes, senão ao bem comum real da sociedade civil e da Igreja. Esta é a doutrina unânime dos Papas preconciliares, e é sobre esta doutrina recebida por ele em seu seminário que Dom Lefèbvre se apoiou, como nós continuamos fazendo-o, para rebater a liberdade religiosa conciliar.

5- Por outra parte, embora Dom Lefèbvre não tivesse aprofundado esta questão, a liberdade religiosa conciliar se reconhece limitada “segundo as exigências do bem comum” (cf. Catecismo da Igreja Católica, CIC). Isto poderia ser a doutrina tradicional se o bem se concebesse, como diz Pio XI em Quas primas, como incluindo em primeiro lugar a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo: «Dele provêm às nações como aos indivíduos toda a prosperidade e felicidade verdadeira» (nº 14). Mas a declaração conciliar e o CIC dizem explicitamente que o bem comum consiste «em primeiro lugar no respeito dos direitos da pessoa humana», o qual é a dissolução mesma do bem comum e o puro individualismo! E Tem-se assim o curioso resultado de proclamar a liberdade religiosa nos limites da liberdade religiosa… Mais claramente: a liberdade religiosa de cada qual nos limites da liberdade religiosa do vizinho. É o ápice do puro liberalismo. João Paulo II chamava a isso «a livre competência das ideologias» (discurso em Estrasburgo, 10/1988) e achava que isto estava bem. Dignitatis humanae situa-se de pleno num tipo de cidade plurirreligiosa que não é, em concreto, senão o fruto da dissolução das cidades católicas pela revolução. Isto basta para condenar sem paliativos a liberdade religiosa conciliar.

Diga-nos também Vossa Excelência qual foi o combate de Dom Lefèbvre sobre a colegialidade e o ecumenismo!

Seja. Primeiro a colegialidade. No concílio, Dom Lefèbvre começou por rechaça-la, depois terminou por calar-se em razão da nota explicativa prévia que Paolo VI fez aditar a Lumen Gentium. Depois do concílio, dizia-nos duas coisas, uma doutrinal, outra práctica. Na doutrina: «no concílio ecuménico, dizia, é o Papa quem comunica a sua infalibilidade aos Bispos». É um pouco a confusão lamentável entre poder supremo do Papa e a sua infalibilidade: confusão muito lamentável devida ao acento desmesurado posto desde 1870 no privilégio da infalibilidade do Papa. Ora, o Papa usa do mesmo escassas vezes! Mas adivinha-se o que Dom Lefèbvre queria dizer: «no concílio ecuménico é o Papa quem comunica ao corpo episcopal reunido uma participação no seu poder supremo e universal sobre a Igreja. E basta acerca deste assunto! É, creio, o que professaremos na profissão de fé que faremos no momento do novo reconhecimento canónico da Fraternidade por Roma. E trata-se de algo que os há de molestar, pode crer-me.

O lado práctico sobre a colegialidade, é que tende a destruir o poder pessoal e assistido pelo Espírito Santo, do Papa sobre toda a Igreja, «porque os Bispos poderiam sempre reivindicar o exercício com o Papa do se-dizente poder supremo e universal deles, ou opor às decisões do Papa um: ‘não temos sido consultados’». Por outra parte, o espírito colegial arruína também a autoridade pessoal e assistida pelo Espírito Santo dos Bispos nas suas dioceses, que já não ousam governar sem consultar um conselho episcopal e o seu conselho presbiteral. Dom Lefèbvre conjeturava, sem saber explica-lo, o espírito da revolução detrás da colegialidade: é, em uma palavra, a democracia parlamentaria na Igreja. Ao mesmo tempo é o reinado dos núcleos dirigentes (os grupos de pressão ou ‘lobbies’), ou o das autoridades paralelas, e a institucionalização do sistema do ‘grupo reductor’, segundo o qual em toda assembleia, se tende, por comodidade ou por cálculo, a buscar às divergências soluções de compromisso. É verdadeiramente a técnica revolucionária aplicada ao governo da Igreja. Adrien Bonnet de Viller, é o seu mérito, tem posto isto em evidência.

Finalmente, o ecumenismo. É «o regresso da plena comunhão com a Igreja dos cristãos separados, e não o seu regresso puro e simples à unidade da Igreja da qual os seus padres se separaram.» Ora bem, esta ideia de comunhão «plena e não plena» é perniciosa. Da mesma maneira que a Igreja de Jesus Cristo é visível, assim a comunhão eclesiástica é algo de externo e visível, constituída por três elementos bem reconhecidos: a mesma fé, a recepção dos mesmos sacramentos e a submissão à mesma autoridade supremo do Romano Pontífice: ou bem estes três elementos estão presentes, ou bem não o estão. Não meio-termo. Ora bem, isto é a doutrina de São Pedro Canisio em toda a sua simplicidade, aceite desde então por todos os catecismos (até as vésperas do concílio) e portanto, doutrina do magistério ordinário da Igreja. O concílio se separou desta verdade e deste Magistério. É gravíssimo. Sob pretexto dos dissidentes conservarem certas verdades ou ritos da Igreja católica, se pretende que estão numa comunhão «imperfeita» com a Igreja. Chega-se até a dizer que as «comunidades separadas», embora «tenham os seus defeitos, não estão desprovidas de sentido e de valor no mistério da salvação» (Unitatis redintegratio, nº 3), o qual é uma blasfémia contra a Igreja católica, único «sacramento da salvação», caso possa se dizer assim; e se acrescenta, escute bem, que «o Espírito de Cristo não há recusado servir-se delas como meios de salvação», o qual é impossível. O Espírito Santo não pode servir-se senão de meios desprovidos de quaisquer rastos de divisão; ora bem, estas comunidades, em quanto que separadas da Igreja, são a própria divisão!

Sem dúvida, podem ter aderentes de boa-fé, que estão num «erro invencível», como se diz, mas a boa-fé não salva ninguém, só a verdade é que salva. É quando começam a ser insatisfeitos das suas doutrinas e de seus ritos quanto, baixo o influxo do Espírito Santo, alguns dissidentes podem ser levados à conversão e ao retorno à Igreja. Isto é o que dizia Dom Lefèbvre com o seu realismo e a sua experiência missionária.