O que Igreja deve a D. Marcel Lefebvre ? 3

Novembro 04, 2020
Fonte: District of Spain and Portugal

Entrevista com Dom Bernardo Tissier de Mallerais

Com ocasião do vigésimo-quinto aniversário do dies natalis do arcebispo Dom Marcel Lefèbvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Dom Bernardo Tissier de Mallerais, Bispo auxiliar da FSSPX, teve a amabilidade de responder às perguntas que lhe fizemos.

Gostaria Vossa Excelência de traçar um retrato de Marcel Lefèbvre como missionário?

Nomeado em agosto de 1930 segundo coadjutor duma paróquia nos subúrbios operários de Lille, o Padre Marcel Lefèbvre entrega-se com zelo ao seu cargo pastoral e ao apostolado entre famílias comunistas, e se esforça por catequizar as crianças. Está plenamente preenchido pelo seu trabalho, e no entanto um pouco desgostado com o clero diocesano, no qual não encontra o espírito de combate que viveu em Santa Chiara. Por isso, a pedido do seu irmão René, missionário no Gabão, Marcel volta-se para a vida missionária, que lhe parece mais útil, mais dura, mais meritória, e entra no noviciado dos Espiritanos em Orly no ano 1931. Após a sua profissão religiosa, é enviado à Africa negra, ao Gabão, ao Sul do Equador.

Nomeado primeiro como professor e depois como Reitor do seminário de Libreville, deixa a recordação dum homem de ordem, excelente organizador, e de um homem «muito afável, agradável e sorridente, firme nas suas ideias, muito amado pelos seus alunos e apreciado pelos padres, manifestando desde o início da sua vida missionária uma competência e um gosto particular pela formação dos sacerdotes» (Testemunho do seu irmão religioso, o Padre Fauret, futuro Bispo).

Esgotado ao fim de seis anos, é enviado à selva, a diversos lugares sucessivos, onde prossegue a obra dos seus predecessores, em particular as plantações, as indústrias dos postos de missão: exploração dos bosques, dos lagos (pescarias), das pedreiras (pedra, cimento, cal, tijolos), imprensa, estaleiro de lanchas, construção dum cais para atracar em Donguila; na casa dos Padres, criação de locutórios para o atendimento dos fiéis, etc.

Mas seguindo os princípios espiritanos, a ordem material está ao serviço do bom ordenamento das almas. Deixa ao seu confrade, um sacerdote negro, o cuidado das escolas da missão: uma escola básica e secundária de rapazes, e uma escola de raparigas (dirigida pelas Irmãs), e fica a cargo das viagens apostólicas pela selva. Na canoa ou na lancha, visita os povoados dispersos ao longo da margem do rio, verifica o trabalho do seu exército de catequistas, que aumenta em número e formação, fica horas intermináveis atendendo confissões sacramentais, celebra a Missa, se alegra a ouvir todos cantando de cor o Kyriale em gregoriano, inclusive o próprio da Missa de defuntos. Celebra o sacramento do Matrimônio, e finalmente elege os melhores alunos das escolas de cada povoado para os levar às escolas das missões, donde se aperfeiçoará os seus talentos, ou inclusive poderá florescer uma vocação religiosa ou sacerdotal. Aos que terminam os seus estudos, aconselha: «Voltai para a aldeia, continuai sendo pobres e trabalhai». Os melhores seguirão estudos superiores nas escolas do Estado ou nas Universidades: serão a elite de amanhã.

E o que deixou no Senegal e em Dakar?

Como Vigário apostólico e arcebispo de Dakar (1947 – 1962) constrói o seminário num sítio mais propício, e trazendo como professores, sacerdotes que tinha mandado para completarem os seus estudos em Roma: quer um corpo docente «romano». Faz reviver a moribunda congregação das Irmãs indígenas; constrói igrejas, tornando-se o caso da igreja de Fatick emblemático da incursão missionária que realiza com sucesso no país Serere, ainda pagão, graças ao zelo e à inteligência do Padre Henri Gravrand. Este jovem Padre, quase recém chegado, haveria dito diretamente: «Excelência, mandaram-me para trabalhar convosco. Mas eu quero uma missão, entende, uma missão de verdade!» Estas palavras não desagradam a Dom Marcel, quem lhe diz: «muito bem, venha comigo, vou mostrar-lhe um lugar que não há ‘descolado’ bem; já verá.» Algumas semanas mais tarde, o jovem padre lhe disse: «Até aqui cheguei com a aprendizagem da língua, mas devo dizer-Vos que, como comprovei, a sua missão está moribunda!» O Bispo sorri: «O que propõe Vossa Reverência?» Escuta as propostas revolucionárias do neófito: «Vossa Excelência, porque não implementarmos para aqueles velhos pagãos polígamos algum tipo de ‘Antigo Testamento’, já que não é possível baptizá-los?» O Bispo fica um pouco escandalizado: «Como!? Sem bautismo!? Vossa Reverência pretende que todos se convertam para o islamismo?» «De todo! Ao contrário! Escutai a minha ideia!»

O Vigário apostólico escuta, compreende e aceita a explicação que se lhe dá: «Esses pagãos receberão certos ensinos do Evangelho, prometerão entregar os seus filhos ao Padre para a catequese; prometerão receber o baptismo antes da morte, ficando com uma só das suas mulheres, recebendo deste modo um cartão de identidade de ‘amigo dos cristãos’ (que é útil também para eles na vida civil); desta maneira vinculam-se sociologicamente com a cristandade e ficam protegidos das pressões do islão que começa a ameaçar o cinturão animista do Senegal». Na altura numa Carta pastoral, Dom Lefèbvre louvará a empresa, não obstante o seu perigo, sem nomear o Padre concernido: «É preciso um zelo inventivo e ingenioso que se não contente com os seus paroquianos nem com os métodos herdados dos predecessores, mas pelo contrário vai para a frente, com os meios, os inimigos, e os métodos do Senegal de hoje, sem por isso impregnar-se dum espírito de novidade ‘qui sapit haeresim’ - renuncio a traduzir.

Além disso o Bispo traz as Carmelitas de Cholet e lhes constrói um Carmelo, a fim de que as suas orações e sacrifícios atraiam a bênção divina sobre as suas missões. Depois descobre a ‘Cité Catholique’ (A Cidade Católica) de Jean Ousset e a promove para grande desgosto do Director da obra da Acção Católica Obreira! Traz também os Padres Cooperadores Paroquiais de Cristo Rei (CPCR): os Padres Augustin Rivière e Noël Barbara que pregam os Exercícios aos seus sacerdotes. Fala-se ali da finalidade da vida, dos novíssimos, do inferno, do chamamento de Cristo Rei, de dirigir a própria vida sem se deixar levar por apegos desordenados: tudo isso faz alguns missionários liberais se estremecerem… Mas Dom Lefèbvre não se importa. Por outro lado, traz todo tipo de congregações religiosas, de ensinamento ou não, masculinas ou femininas, com tanto sucesso que, nas reuniões episcopais de Dakar, os seus colegas extasiam-se com a animação extraordinária que reina na sua diocese e se decidem por imitá-la na sua.

O que poderia dizer do papel de Dom Lefèbvre como Delegado Apostólico de Pio XII?

Precisamente, já ia a falar disso. Olha só, os Papas, às vezes, são idealistas, estão a olhar a Africa como se fosse a China: «Faz falta um clero autóctone, desse modo a Igreja não dará já a impressão de ser estrangeira; e quando esses países jovens obterão a independência, e que os missionários serão expulsos como na China, então a Igreja poderá continuar». «Desde logo, responde Dom Lefèbvre, tudo isso é correcto, mas, - espere!- a Igreja da África não está ao nível da China. É preciso desenvolver as instituições católicas e o zelo dos católicos antes das independências.»

Dom Marcel explica tudo isso ao Papa Pio XII, quando anualmente vai a prestar contas da sua actividade de Delegado. «Santíssimo Padre, venho do Canadá. No espaço de duas semanas, visitei 60 casas religiosas e seminários; tenho a promessa de 20 congregações, algumas novas, de virem a fundar em África. Veja onde vou a coloca-las: está aqui o mapa da Delegação…» Pio XII contempla com gravidade essa expansão. Ora bem, tudo isso vai contra as ideias pré-concebidas mais enraizadas na Curia romana. Pós bem, olha só que o Papa vai seguir o seu Delegado. Na sua Encíclica Fidei Donum, (O Dom Da Fé) de 21 de abril de 1957, exorta os Bispos dos países desenvolvidos «a tomar, com espírito de viva caridade a vossa parte nesta solicitude de todas as igrejas que pesa sobre nossa costas», a deixar partir muitos dos seus sacerdotes como missionários para a África. Aquilo descontenta alguns prelados da Cúria: «Não, disse a Dom Marcel Lefèbvre Dom Celso Costantini, secretário da Congregação para a Propaganda da Fé, estamos errando. Muito em breve serão os africanos quem virão a catequizar-nos! Vossa Excelência tem de parar esta imigração de sacerdotes estrangeiros!» «Mas, acrescenta Dom Lefèbvre, tinha o apoio do Papa Pio XII!»

Tudo isso fazia que as coisas às vezes tornassem «quentes» na Cúria. Sobre todo quando o Delegado Lefèbvre mendigava dinheiro… Um dia, na caixa da Propaganda Fide, farto da insistência do Delegado, o habilitado até chegou a jogar um paquete de dólares por cima da mesa do escritório, e Dom Lefèbvre, inclinando-se para o levantar do chão, disse: «Faça favor! Eu trato disso!» Até aqui uma pequena amostra das actividades ideologicamente «incorrectas» do Delegado apostólico na África francesa.

Pode-se dizer que os anos de África foram os seus «anos de oiro»?

Sim, ele o disse: os seus anos africanos foram para ele os mais empolgantes desde a sua ordenação sacerdotal. Tinha sabido vencer a sua reserva natural, atirar-se, desenvolver as suas facultades naturais de organizador, de iniciativa, de decisões originais, e por cima de tudo, desenvolver a sua graça episcopal. O Sr. Padre Bussard, seu Vigário Geral em Dakar, disse-me muito mais tarde, um dia em Vevey na Suíça, ao pé do palácio da Nestlé, falando de Dom Marcel Lefèbvre: «poderia ter sido um tímido, um pacífico que não faz nada: ora, não tinha nem um minuto livre! Eu ficava a pensar: mas como é que faz? Igual a um motor a explosão! Teria podido ser o Presidente Director Geral da Nestlé, sem problemas!»

É só ver os factos, o fruto da sua acção: os seus anos africanos foram os de um desenvolvimento extraordinário da Igreja em África. Se os homens calassem, falariam as pedras: por toda a parte, seminários, catedrais, escolas! A escola católica foi a sua grande preocupação e a sua grande obra. Contemplava o futuro da Igreja na África. Mandou construir nas portas de Dakar, em Hann, um colégio concebido por ele para 700 alunos de vez; hoje tem 3000. Dizia-nos que aceitavam-se ali até um 10 porcento de muçulmanos, e que estes conservavam para toda a vida a estima pela Igreja. Disse-se-lho ao Papa, e Pio XII escreveu-o, tal qual, em 1951 na sua encíclica sobre as missões Evangelii praecones. Mas esto não era o fim verdadeiro das escolas católicas, nestes países muçulmanos como o Senegal: Dom Lefèbvre veia mais alto, mais longe. Trava-se de formar uma elite católica que, chegado o dia de amanhã, tomaria os tentos do país. E assim aconteceu.

Narrava Dom Lefèbvre a sua obra e os seus sucessos africanos?

Pois bem, em Écône não nos confiava nada do que tinha feito; apenas contava anecdotas do que tinha acontecido então, histórias que partiam-nos do riso: o burro piedoso de Lambaréné, o camião de vinho de palma de N’djolé, a perseguição do ladrão de Chinchua, o rapto da esposa cristã de um polígamo pelos alunos maiores da escola de Lambaréné, o Doutor Schweitzer que não matava nem um mosquito… Não nos contava sequer os seus altercados com demónios na choupana do fabricante de fetiches onde, a golpe de machado, destruía uma boneca fetiche sem tocar o fabricante atemorizado. Aliás não descobri o grande missionário que foi, senão apenas depois da sua morte, acudindo eu mesmo, ou algum irmão sacerdote, àquelas terras para interrogar as testemunhas superviventes.