O que Igreja deve a D. Marcel Lefebvre ? 2

Novembro 03, 2020
Fonte: District of Spain and Portugal

Entrevista com Dom Bernardo Tissier de Mallerais

Com ocasião do vigésimo-quinto aniversário do dies natalis do arcebispo Dom Marcel Lefèbvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Dom Bernardo Tissier de Mallerais, Bispo auxiliar da FSSPX, teve a amabilidade de responder às perguntas que lhe fizemos.

Como compreendermos a luta futura de Dom Marcel Lefèbvre contra dois Papas?

Não foi um combate contra dois Papas, mas sim contra os seus erros. Paulo VI acusou-o: «Vossa Excelência está contra o Papa!» Reclamação absurda! «É Vossa Santidade, respondeu, que nos obriga a afastar-nos de Si, por fidelidade aos vossos predecessores!»

Ele nunca teria combatido este combate se tivesse sido seminarista na França. Disse-o ele próprio: «Se eu tivesse ingressado no seminário de Lille, a minha vida teria sido totalmente distinta. Graças ao Padre Collin, Professor do meu irmão René em Versailles entre 1917 e 1918, fui mandado para o Seminário Francês de Roma e formado ali», um seminário único no seu género, onde formavam-se Sacerdotes piedosos e seguros na doutrina, certamente, como tinha-o querido o Fundador dos Espiritanos, Claudio Poullart des Places, e era magnífico, mas também sacerdotes combativos, o qual era raríssimo na Igreja.

Este amor dos Papas e dos seus ensinamentos, que recebeu ali, é que o fez sofrer terrivelmente 40 anos mais tarde no segundo Concílio do Vaticano, quando se pretendia leiloar tudo aquilo que Marcel Lefèbvre havia recebido, compreendido, assimilado e amado em Santa Chiara! Seria levado depois a contradizer os Papas, é verdade, a negar a obediência às reformas pós-conciliares, ele, o grande obediente, que havia ensinado aos seus seminaristas africanos: «o Papa é o sucessor de Pedro, o Cristo na Terra, a Rocha firme, a luz do mundo!» Ele terá tido de admitir, como havia ensinado Pio XII: «E se às vezes na Igreja se vê algo em que se manifesta a fraqueza humana, isso não deve atribuir-se à sua constituição jurídica, mas àquela lamentável inclinação do homem para o mal, que seu divino Fundador às vezes permite até nos membros mais altos do seu corpo místico para provar a virtude das ovelhas e dos pastores e para que em todos cresçam os méritos da fé cristã. (…), Não é isso razão para diminuirmos nosso amor para com ela, mas antes para aumentarmos a nossa compaixão para com os seus membros.» (Encíclica Mystici Corporis, 29 de junho de 1943, nº 64).

É essa piedade, esse respeito aos Papas, não por causa da sua pessoa mas sim a causa da sua função, o que impedirá sempre a Marcel Lefèbvre deixar-se levar por reacções ou palavras ofensivos acerca dos Papas conciliares. E foi a consideração da permanência da suprema função pontifical debaixo dos erros de esses Papas equívocos, a que impedirá cair no erro sedevacantista de quem, escandalizados com toda razão pelos erros de esses mesmos pontífices, concluíam equivocadamente que haviam perdido a sua função de Papas. Continuará indo a Roma, visitando os prelados liberais ou modernistas, «para tentar convertê-los», dizia, ou pelo menos obter deles que «sejamos quando menos tolerados» e que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X fosse novamente reconhecida canonicamente, (depois da sua suposta supressão a 6 de maio de 1975), e que «sejamos reconhecidos como somos», dizia. Foi a sua política romana durante quinze anos, desde a suposta supressão da Fraternidade em 1975, até a sua morte em 1991.