O que Igreja deve a D. Marcel Lefebvre ? 1

Novembro 02, 2020
Fonte: District of Spain and Portugal

O que a Igreja deve a D. Marcel Lefebvre ? 1

Entrevista com Dom Bernardo Tissier de Mallerais

Com ocasião do vigésimo-quinto aniversário do dies natalis do arcebispo Dom Marcel Lefèbvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Dom Bernardo Tissier de Mallerais, Bispo auxiliar da FSSPX, teve a amabilidade de responder às perguntas que lhe fizemos.

Vossa Excelência foi um dos primeiros entre nós a conhecer e seguir Dom Lefèbvre. Além disso, é o seu biógrafo. O que evoca Dom Lefèbvre para Vossa Excelência 25 anos após a sua morte? Qual foi a sua principal «consigna»?

O nome de Dom Lefèbvre evoca na minha memória o homem suave e humilde de coração, e ao mesmo tempo, o prelado forte e violento, desta violência da qual disse Nosso Senhor que quem a usa apoderar-se-á do reino dos céus. A sua consigna foi, sem dúvida alguma, a sua divisa episcopal «Credidimus Caritati, Nós acreditamos no amor». Ele queria dizer com S. João «Nós temos conhecido o amor que Deus nos tem e temos crido neste amor» (1 Jo. 4, 16), ou assim mesmo como no Adeste Fideles do Natal: «Sic nos amantem, quis non redamaret?», o que significa «Quem nos amou tanto, haverá quem O não ame por sua vez?»

Toda a sua vida foi, por tanto, uma questão de responder com amor ao amor de Deus: desde a sua vocação sacerdotal aos 17 anos, até a sua morte como “excomungado”. O Cardeal Oddi, que o conhecia, dizia: «amou demais à Igreja», isto é: levou o amor da Igreja e de Nosso Senhor até o extremo, se expondo às censuras eclesiásticas as mais graves, suspensão e excomunhão, para salvar o sacerdócio e a permanência do santo sacrifício da Missa na Igreja. Seguiu o seu divino Mestre: «Propter nimiam caritatem qua dilexit nos Deus: por causa da caridade excessiva com que Deus nos amou» (antífona das Vésperas do 1º de Janeiro).

Pode relembrar-nos o legado que ele recebeu como jovem seminarista em Roma?

É simples: o amor ao Papa e à Igreja. Os Papas vistos na notável continuidade dos seus ensinos em matéria política e social, desde Gregório XVI, Pio IX, até São Pio X e Pio XI. O que eles ensinaram durante século e meio contra os erros do liberalismo e do modernismo. No colégio de Tourcoing, ele não havia percebido a malícia deste erros e o papel capital destes Papas para preservar a Igreja do seu açoite e manter a fé na realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na Rua de Santa Chiara, sob a direção do Padre Henri Le Floch, Diretor do Seminário Francês de Roma, Marcel Lefèbvre fez a sua conversão intelectual: «Foi para mim uma revelação total. Compreendi que estava no erro. Por exemplo, eu acreditava muito bom o Estado ficar separado da Igreja. Eu era um liberal! No Seminário compreendi que seria necessário reformar as minhas ideias, à luz destas magníficas encíclicas dos Papas. Isto tudo mostrou para nós como tínhamos de julgar a História. E de vez, aclarou-se tudo! Com grande suavidade nascia em nós o desejo de conformar o nosso pensamento, o nosso juízo sobre os acontecimentos, com o pensamento da Igreja. Isto deu-nos o impulso. O Padre Le Floch dizia-nos: «Ao entrar no Seminário, aqui em Santa Chiara, entrais na História da Igreja». É exactamente isso: fez nos viver e entrar na História da Igreja, isto é neste combate em contra das forças perversas que lutam contra Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquilo mobilizou-nos, sim mobilizou-nos, em contra de este funesto liberalismo, contra a Revolução e as potências do mal que obram para derrubar a Igreja, o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo, os Estados católicos, e toda a Cristandade ».

A encíclica inaugural E supremi apostolatus de São Pio X, e a divisa pontifícia do santo Papa: Omnia instaurare in Cristo, ou «recapitular, restaurar tudo em Cristo», tinham-no entusiasmado especialmente. Como muitos dos seus condiscípulos, sentia-se esporeado, diria eu, não tanto pelo tomismo e a teologia que recebia na Universidade Gregoriana, que faziam as delícias dos espíritos mais especulativos, como o de um Victor Alain Berto, mas ainda pelo combate por Cristo Rei e Sacerdote. Posto que o seu Reino, individual nas almas e social na Cristandade, é o fruto da sua Cruz: «regnavit a ligno Deus» cantamos no Vexilla Regis do tempo da Paixão: «Deus reina pelo lenho, pelo lenho da sua Cruz; e por tanto pela Missa, que é a reactualização sacramental do sacrifício do Calvário e que distribui o tesouro dos méritos do Redentor». Temos aqui o legado recebido por Marcel Lefèbvre em Santa Chiara, herança que estava determinado a transmitir custasse o que custasse, disposto a entrar ele também no combate dos Papas assim como Deus quisesse. Era um Sacerdote preparado.