Pode-se celebrar ou assistir à missa de Paulo VI?

Março 14, 2019
Fonte: District of Spain and Portugal

Não se pode nem celebrar a missa de Paulo VI nem assistir a ela. É o que pensam os padres da Fraternidade de São Pio X, outras comunidades e muitos fiéis.

Esta afirmação parece dura. Muitas pessoas a recusam. Ou tomam francamente a defesa du Novus Ordo Missae, ou, pelo menos, nos dizem: “As vossas censuras sobre a nova missa são excessivas. Celebrá-la ou assistir a ela, não é proibido”. Em especial fazem-nos as seguintes objecções:

1. Os defeitos da missa de Paulo VI são reais: ela é, por isso, imperfeita. Mas os defeitos não são tais que se possa dizer ilegítima. Numa palavra, ela é menos boa que o rito tradicional, mas nem por isso é má.

2. Há circunstâncias nas quais a missa de Paulo VI é dita bem, por exemplo quando é celebrada em latim, de costas para o povo, por um padre piedoso e sério, com a primeira Oração eucarística. Nesses casos, assistir a ela (ou celebrá-la) não é proibido, e até pelo contrário.

3. A missa segundo o rito de Paulo VI foi dita diariamente pelos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI; pelos cardeais Burke e Sarah. A irmã Lúcia, que viu Nossa Senhora, assistiu a ela, tal como muitos santos religiosos e santas religiosas. Não é, pois, razoável afirmar que não se pode celebrá-la nem assistir a ela!

4. Promulgando o rito da missa, o papa Paulo VI fez, para a Igreja, uma lei da sua celebração e assistência segundo esse rito; tal lei obriga. Ora o papa não se pode enganar quando promulga uma lei para toda a Igreja: com efeito, ele é, então, infalível. Portanto, a missa de Paulo VI é boa.

Antes de responder a cada uma destas objecções, expliquemos por que consideramos que não se pode celebrar nem assistir activamente à missa de Paulo VI, tanto ao domingo como em dia de semana. A razão de fundo pode ser resumida assim:

 

(A) Não se pode celebrar a missa segundo um rito não católico nem assistir a ela.

(B) Ora a missa de Paulo VI é um rito não católico.

(C) Portanto não se pode celebrar a missa de Paulo VI nem assistir a ela.

 

A primeira consideração (A) lembra simplesmente que não é lícito participar num rito não católico (cânone 1258). Por exemplo, se estamos ao domingo num país onde não há missa católica, nem por isso é permitido ir rezar a uma missa ortodoxa e, por maioria de razão, no quadro de um culto protestante.

A segunda afirmação (B) é mais abrupta. Prova-se assim: todo o rito da missa que, embora tendo sido aprovado pela Santa Sé, é ao mesmo tempo indigno do culto divino e da reiteração sacramental do sacrifício da Cruz, e que é mais nefasto do que proveitoso àqueles que o celebram ou a ele assistem, é um rito não católico. Ora o rito de Paulo VI, embora tenha sido aprovado pela Santa Sé, é indigno do culto e da representação sacramental do Calvário, e mais nefasto do que proveitoso para as almas. Por conseguinte, não merece a apelação de católico.

Mas, precisamente, como se chega à convicção dessa indignidade e desse perigo que ela representa para as almas? Pelos argumentos que foram expostos em diversos estudos (livros e revistas), e de que a maioria é recordada neste dossier.

Precisemos que não se pode dizer que esta missa seja inválida em si (embora possa sê-lo num lugar ou outro). Ela é uma missa verdadeira, pois a matéria do sacramento (pão e vinho) e as palavras pronunciadas sobre essa matéria (Isto é o meu corpo...) são as que Jesus Cristo instituiu. O coração (a substância) da missa, isto é, a consagração, não está em si ausente deste rito. Contudo, não é uma missa católica, o que a torna ilícita. Pois o que envolve o coração da missa não é digno do culto católico e constitui um perigo mais que uma vantagem para as almas.

Além disso, os defeitos deste rito são mais frequentemente omissões (por exemplo, a rarefacção da referência ao sacrifício) do que afirmações frisando a heresia ou gestos pouco reverentes. Cada um destes defeitos de per si (por exemplo a redução do número de genuflexões, o mau entendimento da participação dos fiéis) não basta para evitar a missa de Paulo VI. Mas é o seu conjunto, a ordem geral (mais exactamente a desordem, chamada em teologia privação), o todo composto destas diversas infracções que leva, infelizmente, a julgar que ela “se afasta, tanto no conjunto como no pormenor, da teologia católica do sacrifício da missa”. Aqui e além encontra-se, nesse rito, o sagrado, mas não suficientemente para fazer com que o conjunto seja sagrado; há orações e gestos que convêm ao sacrifício redentor, mas não suficientemente para que o rito seja digno do sacrifício; há benefícios a esperar para a piedade dos fiéis, mas este rito é mais propício a fazer-lhes mal do que bem. De resto, o estado das crenças e da piedade nos católicos de hoje, é um índice de tudo isto.

Resta responder às objecções acima apresentadas.

1. Uma vez que se verificou o conjunto dos defeitos desta missa, deve-se concluir que ela é apenas imperfeita, ou de preferência que é ilícita? Neste momento há uma apreciação a fazer. A verdade, é que os defeitos são tais que a tornam ilícita. Todavia, pelo facto de provir do próprio papa, e de ser celebrada em toda a parte há décadas, não há nada de surpreendente em que muitos católicos hesitem em adoptar esta apreciação. São, portanto, a autoridade de Roma e o hábito de assistir a esta missa que impedem muitos católicos de julgar este rito como merece. Por este facto, seria absurdo ser rigoroso com aqueles que não partilham o ponto de vista da Fraternidade.

2. O facto de esta missa poder ser dita ora “com seriedade” ora com trapalhice é já um defeito grave. Seja como for, mesmo celebrada por um padre fervoroso, esta missa mantém as suas deformidades intrínsecas. Há neste caso uma desproporção entre a qualidade do celebrante e o rito que ele celebra, como uma peça de teatro má desempenhada por um bom actor.

3. É surpreendente e quase incrível que um rito que não é verdadeiramente católico seja celebrado por papas, bispos, e que santas pessoas a ele assistam. Sem dúvida. Mas nada, na constituição da Igreja, garante que seja impossível. Aliás, é também surpreendente, e quase incrível, que na Igreja tenha havido a Dignitatis humanae, as reuniões de Assis e a Amoris laetitia, que no entanto são da ordem dos factos.

4. O papa, quando promulga uma lei litúrgica para a Igreja universal, é infalível. Ora a promulgação desta missa tem a aparência de uma lei litúrgica para a Igreja. Esta quarta objecção é, pois, grave. Mas respondeu-se-lhe, seguindo o canonista P. Raymond Dulac, que, apesar das aparências, não houve verdadeira promulgação. Alguns (o P. Anthony Cekada, por exemplo) tentaram refutar a argumentação do P. Dulac, sustentando que Paulo VI quis realmente obrigar os padres a celebrar segundo o novo rito, o que implicava proibir o rito tradicional. Mas esta refutação foi inviabilizada desde o motu proprio Summorum pontificum, visto que Bento XVI nela confirmou que Paulo VI não havia nunca proibido o rito tradicional.

 

P. Philippe Toulza, da Fraternidade Sacerdotal São Pio X