O Papa Francisco é mesmo um herege e deve ser deposto?

Maio 23, 2019
Fonte: District of Spain and Portugal

Na terça-feira, 30 de Abril de 2019, vinte teólogos católicos e professores universitários publicaram uma Carta Aberta dirigida aos Bispos da Igreja Católica, convidando-os a intervir perante o Papa Francisco para pedir-lhe que renuncie às heresias de que é acusado. No caso do Papa persistir nelas, estabelecer-se-á o crime canónico de heresia, ficando o Papa “sujeito às consequências canónicas”. O resumo publicado pelos autores explica este último ponto: “se Francisco se negar com pertinácia, pedir-se-lhe-á para declarar que ele próprio, livremente, se privou do Papado.”

Este resumo explica também que a mencionada carta é o terceiro passo de um processo que começou no Verão de 2016. O primeiro passo consistiu numa carta privada subscrita por 45 signatários, que foi dirigida a todos os cardeais e patriarcas orientais, na qual se denunciavam as heresias ou erros graves cometidos ou apoiados pela Exortação Apostólica Amoris Laetitia. O segundo passo consistiu num texto intitulado Correctio Filialis (Correcção Filial), assinado por 250 subscritores, publicado em Setembro de 2017 e apoiado por uma petição assinada por 14 000 pessoas. Neste texto pedia-se ao Papa que tomasse uma posição a respeito dos graves desvios produzidos pelos seus escritos e pelas suas declarações. Finalmente, a actual Carta Aberta afirma que o Papa Francisco é culpável do crime de heresia, e se esforça por demonstrá-lo porque as palavras e acções do Papa Francisco constituem uma rejeição profunda da Doutrina Católica sobre o Matrimónio, a lei moral, a Graça, e o perdão dos pecados. Mais de 5 000 já assinaram esta petição posta on line pelos autores.

               Esta iniciativa revela a crescente indignação e exasperação de muitos católicos face aos escritos e às acções do actual Soberano Pontífice. E, efectivamente, existem boas razões para preocupar-se com os ensinamentos do Papa francisco em questões morais. De facto, actualmente nota-se uma maior consternação da opinião pública por um erro nestas questões do que em duplicidades cometidas contra a Fé. Isto apesar dos ensinamentos do Papa Francisco também serem desviantes, e até mais desviantes, em questões de Fé.

               Face a uma situação aparentemente sem precedentes (apesar da História da Igreja, infelizmente, oferecer vários exemplos de épocas que foram particularmente problemáticas e mesmo similares à nossa) a tentação de recorrer a medidas extremas entende-se facilmente. A situação do catolicismo é hoje tão trágica que seria difícil condenar os católicos que tentam alcançar o impossível através das suas reacções e apelos aos pastores, a quem o rebanho foi confiado.

Os frutos do Concílio Vaticano II

               De facto, primeiro há que assinalar que este problema não é recente. Começou com a “Terceira Guerra Mundial” que, segundo o Monsenhor Lefebvre, foi o Concílio Vaticano II. Este concílio, através das suas reformas, provocou “a auto-destruição da Igreja” (Paulo VI), semeou a ruína e a desolação em matéria de fé, moral, disciplina, vida sacerdotal e religiosa, liturgia, catecismo e na vida católica na sua totalidade. Porém, muito poucos observadores compreendem isto realmente. Mais raros ainda são aqueles que enfrentam esta destruição universal de uma maneira determinada e efectiva.

               Efectivamente, o que estamos a presenciar com o Papa Francisco é apenas o amadurecimento do fruto. Trata-se do fruto envenenado de uma planta cuja semente foi desenvolvida nos laboratórios teológicos progressistas e modernistas da década de 1950, como um OGM (organismo geneticamente modificado), um híbrido impossível entre a Doutrina Católica e o espírito liberal. O que vemos hoje não é pior do que as novidades introduzidas pelo Concílio Vaticano II, só que agora estamos diante de uma manifestação mais visível e mais completa. Tal como o encontro de Assis, no pontificado de João Paulo II em 1986, foi apenas o fruto das sementes do diálogo ecuménico e inter-religioso plantadas pelo referido concílio, assim também o presente pontificado ilustra os resultados inevitáveis do Concílio Vaticano II.

Uma abordagem radical condenada ao fracasso

            A segunda observação centra-se no modus operandi. Dada a maneira radical pela qual os sucessores dos apóstolos são exortados, temos que perguntar: Quais são os resultados esperados de tal acção? Esta é uma maneira prudente de agir? Tem possibilidades de ter êxito?

            Falemos um pouco sobre os destinatários. Quem são? Que tipos de formação receberam? Que Teologia lhes ensinaram? Como foram escolhidos? Tendo em conta o modo como os diversos episcopados do mundo receberam os textos incriminadores, é muito provável, e mesmo certo, que a grande maioria dos bispos não reaja. Com poucas excepções, todos parecem prisioneiros de sua própria formação corrupta e de uma colegialidade paralisante, no caso de alguém querer ser diferente dos demais.

            E se os bispos não responderem? O que vai acontecer então? O que será feito? Essa possibilidade iria demonstrar o fracasso de tal iniciativa, o que poderia ridicularizar os autores e a sua causa. Esta Carta Aberta é uma perda de tempo: uma acção que produz pouco efeito, fruto de uma legítima indignação, mas que cai em excesso, correndo o risco de diminuir a sua boa influência.

            Além disso, o perigo desta abordagem poderia ser induzir os seus autores a desviar-se da luta em curso. Corremos o risco de sermos cativados pelo presente mal, esquecendo-nos de que ele tem raízes e que é o resultado lógico de um processo contaminado desde a sua origem.

            Como um pêndulo, há aqueles que acreditam que podem exaltar o passado recente para denunciar melhor o presente, recorrendo ao magistério dos Papas do Concílio Vaticano II, de Paulo VI a Bento XVI, para se opor a Francisco. Esta é a posição de muitos conservadores, que esquecem que o Papa Francisco está apenas a trazer à luz as consequências dos ensinamentos do Concílio Vaticano II e dos seus sucessores. Não se pode arrancar uma árvore ruim cortando apenas o último ramo...

O exemplo de Sua Ex.ª Rev.ª Monsenhor Lefebvre

            "O que fazer então?", perguntam alguns. Sem querer “defender a própria paróquia”, ou ceder a um orgulho mal-entendido, podemos dizer que há um exemplo a seguir, o do Santo Atanásio dos tempos modernos: Sua Ex.ª Rev.ª D. Marcel Lefebvre.

            Ele sempre falou firmemente contra a direcção tomada pelos Papas modernos. Mas, na sua luta pela Fé, evitou cair em excessos e nunca pretendeu resolver todos os problemas infligidos à consciência católica pela crise da Igreja que se arrasta há mais de meio século. Ele nunca perdeu o respeito pela autoridade legítima, mas sabia como corrigir firmemente sem se permitir julgar os outros como se ele fosse superior. Deixava nas mãos da Igreja do futuro a tarefa de resolver um problema insolúvel actualmente.

            Sua Ex.ª Rev.ª D. Marcel Lefebvre lutou na frente doutrinal, primeiro durante o Concílio Vaticano II e depois com os seus muitos escritos e palestras, para combater a hidra liberal e modernista. Lutou na frente da Tradição, tanto litúrgica como disciplinar, para preservar o antigo e augusto Sacrifício da Igreja, assegurando a formação de sacerdotes, escolhidos para perpetuar esta acção essencial para a continuidade da Igreja. Lutou na frente romana, chamando a atenção das autoridades eclesiásticas sobre os excessos cometidos pela barca de Pedro, sem nunca se cansar nem endurecer-se, sempre iluminado por uma sabedoria maravilhosa tirada da oração e reforçada pelos exemplos e ensinamentos de XX séculos de Papado. Os resultados mostraram que esta era a atitude certa, como São Paulo disse: "Prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura, exorta com bondade e doutrina" (2.ª Carta a Timóteo 4, 2).

            Que a Virgem Santíssima, Nossa Rainha, terrível como um exército em ordem de batalha, nos ajude a "trabalhar até o nosso último suspiro para a restauração de todas as coisas em Cristo, para a expansão do Seu reino e para a preparação do triunfo glorioso do Coração Doloroso e Imaculado de Maria " (Consagração da Fraternidade de São Pio X).